 A ponta
da lança de Sor Gregor quebrara-se em seu pescoço e o sangue
de sua vida fluiu em lentas golfadas, cada uma mais fraca que
a anterior. Sua armadura brilhava de tão nova; uma
brilhante faixa de fogo corria pelo braço estendido onde o aço
capturava a luz. Então, o sol se escondeu atrás de uma
nuvem, que desapareceu. O manto era azul, da cor do céu
num dia límpido de verão, ornamentado com uma borda de
luas crescentes, mas quando o sangue o encharcou, o tecido
escureceu e as luas foram se tornando vermelhas, uma a uma.
Jeyne Poole chorou tão histericamente que Septã Mordane
acabou por levá-la até que recuperasse a compostura, mas
Sansa ficou sentada, com as mãos fechadas sobre o colo,
observando com um estranho fascínio. Nunca antes tinha
visto um homem morrer. Também devia chorar, pensou, mas
as lágrimas não vinham. Talvez tivesse gasto todas elas com
Lady e Bran. Disse a si mesma que seria diferente se tivesse
sido Jory, Sor Rodrik ou seu pai. O jovem cavaleiro do manto
azul não lhe era nada, um estranho qualquer vindo do Vale de
Arryn, cujo nome esquecera assim que o ouvira. E agora o
mundo também esqueceria seu nome, concluiu; não haveria
canções em sua honra. Era triste.
Depois de levarem o corpo, um rapaz com uma pá correu para
o campo e atirou terra sobre o local onde o jovem caíra para
cobrir o sangue. E então recomeçaram as justas.
Sor Balon Swann também caiu perante Gregor, e Lorde
Renly, perante Cão de Caça. Renly foi desmontado tão
violentamente que pareceu voar para trás, para longe do
adversário, com as pernas para o ar. A cabeça bateu no chão
com um crac audível que fez a multidão prender a respiração,
mas era apenas o chifre de ouro do elmo. Um dos galhos tinha
se partido sob seu peso. Quando Lorde Renly se pôs em pé, o
público aplaudiu ruidosamente, pois o bonito irmão mais
novo do rei Robert era muito popular. Entregou o galho
partido ao seu vencedor com uma vénia cortês. Cão de Caça
resfolegou e atirou a haste partida à multidão, onde a arraia-
miúda desatou aos socos e aos empurrões na disputa pelo
pequeno bocado de ouro, até que Lorde Renly surgiu entre
eles para restaurar a paz. A essa altura Septã Mordane já
regressara, sozinha. Jeyne sentira-se doente, explicou;
ajudara-a a voltar ao castelo. Sansa quase se esquecera de
Jeyne.
Mais tarde, um pequeno cavaleiro com um manto xadrez caiu
em desgraça ao matar o cavalo de Beric Dondarrion e foi
desclassificado. Lorde Beric mudou a sela para uma nova
montaria, apenas para ser derrubado logo a seguir por Thoros
de Myr. Sor Aron Santugar e Lothor Brune investiram três
vezes sem resultado; Sor Aron caiu depois perante Lorde
Jason Mallister, e Brune, perante o filho mais novo de Yohn
Royce, Robar.
No fim, restaram quatro: o Cão de Caça; seu monstruoso
irmão Gregor; Jaime Lannister, o Regicida; e Sor Loras
Tyrell, o jovem a quem chamavam Cavaleiro das Flores.
Sor Loras era o filho mais novo de Mace Tyrell, senhor de
Jardim de Cima e Protetor do Sul. Com dezesseis anos, era o
mais novo cavaleiro em campo, mas naquela manhã, em suas
primeiras três justas, tinha derrubado três cavaleiros da
Guarda Real. Sansa nunca vira ninguém tão belo. Sua placa
de peito estava primorosamente moldada e adornada como
um buquê de mil flores diferentes, e seu garanhão branco
como a neve estava envolvido em uma manta de rosas
vermelhas e brancas. Depois de cada vitória, Sor Loras tirava
o elmo, cavalgava devagar em torno do alam-brado, e por fim
tirava uma única rosa branca da manta e a atirava a alguma
bela donzela que visse na multidão. Seu último encontro do
dia foi com o Royce mais novo. As runas ancestrais de Sor
Robar pouca proteção providenciaram, pois Sor Loras
quebrou-lhe o escudo e o arrancou da sela, fazendo-o cair com
um horrível estrondo. Robar ficou gemendo enquanto o
vencedor fazia seu circuito do campo. Por fim, chamaram
uma liteira e levaram o vencido para sua tenda, aturdido e
imóvel. Sansa nem o viu. Só tinha olhos para Sor Loras.
Quando o cavalo branco parou na sua frente, pensou que seu
coração arrebentaria.
Às outras donzelas dera rosas brancas, mas a que escolheu
para ela era vermelha.
- Querida senhora - disse -, nenhuma vitória possui sequer
metade da sua beleza - Sansa recebeu a rosa timidamente,
estupidificada pelo galanteio. Os cabelos do jovem eram uma
massa de grandes caracóis castanhos, seus olhos eram como
ouro líquido. Inalou a doce fragrância da rosa e ficou
agarrada a ela até muito depois de Sor Loras ter se afastado.
Quando Sansa acabou por finalmente olhar para cima, um
homem estava em pé à sua frente, sem desviar o olhar. Era
baixo, com uma barba pontiaguda e um fio de prata nos
cabelos, quase tão velho como seu pai.
- A senhora deve ser uma de suas filhas - o homem lhe disse.
Tinha olhos cinza-esverdeados que não sorriam quando a
boca o fazia. - Tem o jeito dos Tully.
- Sou Sansa Stark - ela disse, pouco à vontade. O homem
usava um manto pesado, com colarinho de peles, atado com
um tejo de prata, e possuía as maneiras fáce